A queixa mais comum sobre a IA nas empresas é sempre a mesma: “os textos saem genéricos”. O diagnóstico também: a IA não sabe quem é a empresa, como fala, para quem vende nem o que a distingue. Cada conversa começa do zero, e o resultado soa a qualquer outra marca.
A solução não passa por instalar mais ferramentas. Passa por escrever, uma vez, o que a IA precisa de saber. Neste artigo proponho uma estrutura simples de três ficheiros (a voz, o negócio e o público) que funciona no Claude Code, nos Projetos do Claude e também noutros assistentes. E mostro dois recursos nativos do Claude Code que tiram mais partido desse contexto sem instalar nada.
Em resumo
O essencial
- Três ficheiros: minha-voz, meu-negocio e meu-publico
- Escrevem-se uma vez, de preferência por ditado, e corrigem-se com o uso
- No Claude Code, importam-se no CLAUDE.md; no claude.ai, vão para um Projeto
- Quando um texto sai mal, corrige-se o ficheiro, não só a resposta
- Dois agentes (um que faz, outro que revê) melhoram muito o resultado
Termos usados neste artigo
- Contexto: a informação que o assistente de IA tem disponível numa conversa. Sem contexto, responde com generalidades.
- Claude Code: a versão do Claude que trabalha em ficheiros e pastas do seu computador.
- CLAUDE.md: ficheiro de instruções que o Claude Code lê automaticamente no início de cada sessão.
- Projeto (Claude Projects): espaço no claude.ai com instruções e ficheiros próprios, usados em todas as conversas desse projeto.
- Importação (
@): forma de oCLAUDE.mdincluir outros ficheiros, por exemplo@cerebro/minha-voz.md.- Subagente: agente auxiliar, definido num ficheiro, com o seu próprio papel, modelo e ferramentas.
- Persona: descrição do cliente-tipo: quem é, que problema tem, o que o faz decidir.
Porque três ficheiros (e não um documento gigante)
Muitas empresas tentam resolver o problema com um único documento de 20 páginas: manual de marca, apresentação comercial, estudo de mercado, tudo junto. A IA lê-o, mas não sabe o que é mais importante, e o documento torna-se impossível de manter.
Separar em três ficheiros tem três vantagens:
- Cada ficheiro responde a uma pergunta clara. Como falamos? O que vendemos? A quem?
- É fácil de corrigir. Se o tom está errado, mexe-se num ficheiro; se o preço mudou, noutro.
- É reutilizável. Os mesmos ficheiros servem para o Claude, para o ChatGPT, para um novo colaborador ou para uma agência.
Infografia
Os três ficheiros do “cérebro”
Como falamos
- Palavras que usamos e que evitamos
- Tamanho típico das frases
- Tratamento do cliente (você, tu)
- Três textos reais de exemplo
O que vendemos
- Produtos, serviços e preços
- O que entregamos e o que não fazemos
- Concorrentes e diferenciação
- Cores e tipos de letra da marca
A quem vendemos
- Quem é o cliente
- O que já tentou antes
- A dor, nas palavras dele
- A principal objeção e o que quer ouvir
O conteúdo de cada ficheiro
minha-voz.md
# A nossa voz
## Como falamos
- Português de Portugal, com o Acordo Ortográfico em vigor.
- Tratamos o cliente por "você". Nunca "tu".
- Frases curtas. Parágrafos de 2 a 3 frases.
- Diretos, sem exageros. Preferimos números a adjetivos.
## Palavras que usamos
- "resultado", "na prática", "o que muda é..."
## Palavras e expressões que nunca usamos
- "solução inovadora", "líder de mercado", "no mundo atual", "é fundamental"
- Termos do português do Brasil ("time", "tela", "planilha")
## Exemplos reais
[colar três textos que representam bem a marca: um email, um post e uma descrição de serviço]
meu-negocio.md
# O nosso negócio
## O que vendemos
- [serviço/produto 1]: [o que é, para quem, preço ou intervalo]
- [serviço/produto 2]: ...
## O que entregamos
- [lista concreta]
## O que não fazemos
- [lista: evita que a IA prometa o que a empresa não faz]
## Concorrentes que o cliente compara connosco
- [nome]: [onde são melhores] / [onde somos melhores]
## Identidade visual
- Cores: [#código]
- Tipos de letra: [nomes]
meu-publico.md
# O nosso cliente
## Quem é
- [cargo, dimensão da empresa, setor, região]
## O que já tentou
- [soluções anteriores e porque não funcionaram]
## A dor, nas palavras dele
- "[frase real ouvida numa reunião ou lida num email]"
## A principal objeção
- "[ex.: já tentámos com uma agência e não resultou]"
## O que quer ouvir
- [o resultado que procura, descrito como ele o descreveria]
O ficheiro mais negligenciado é o do público, e é o que mais muda o resultado. Frases reais de clientes valem mais do que qualquer descrição de persona feita em workshop.
Como criar os ficheiros: ditar, não escrever
A forma mais rápida de preencher os três ficheiros é falar. Ditar é mais rápido do que escrever e, sobretudo, sai no tom natural da pessoa.
- No Mac: carregar duas vezes em Fn ativa o ditado do sistema.
- No Windows: Windows + H.
- No Claude Code: tem também ditado por voz próprio.
Depois de ditar, peça ao Claude que organize:
Vou ditar-te informação sobre a minha empresa. Organiza-a em três ficheiros dentro da pasta cerebro/:
minha-voz.md, meu-negocio.md e meu-publico.md, com a estrutura que te vou indicar.
Regras:
- Não inventes nada. Se faltar informação essencial, pergunta-me uma coisa de cada vez.
- Mantém as minhas expressões e as frases dos clientes exatamente como as disse.
- No fim, escreve uma publicação de LinkedIn sobre [tema] usando os três ficheiros,
para eu confirmar se soa à nossa marca.
Onde guardar: Claude Code ou Projetos do Claude
Infografia
O mesmo cérebro, dois sítios
Projetos do Claude
Para quem trabalha na app ou no browser.
- Criar um Projeto “Marca”
- Carregar os três ficheiros no conhecimento do Projeto
- Nas instruções: “Usa sempre os três ficheiros antes de escrever”
Pasta de trabalho
Para quem trabalha com ficheiros no computador.
- Pasta
cerebro/com os três ficheiros - Importar no
CLAUDE.mdcom@ - Lidos automaticamente em todas as sessões
No Claude Code, uma estrutura de pastas simples:
meu-claude/
├── CLAUDE.md ← instruções gerais + importações
├── cerebro/
│ ├── minha-voz.md
│ ├── meu-negocio.md
│ └── meu-publico.md
├── prompts/ ← pedidos que funcionaram bem
├── projetos/ ← cada trabalho na sua pasta
└── .claude/
├── agents/ ← subagentes (ver abaixo)
└── commands/ ← comandos personalizados
E o CLAUDE.md na raiz:
# Contexto da empresa
@cerebro/minha-voz.md
@cerebro/meu-negocio.md
@cerebro/meu-publico.md
# Regras
- Antes de entregar qualquer texto, confirma-o contra meu-publico.md: responde à dor e à objeção?
- Guarda cada trabalho em projetos/<nome>/.
- Quando um pedido funcionar bem, guarda-o em prompts/<nome>.md.
A regra de ouro: corrigir o ficheiro, não a resposta
Este é o hábito que separa quem tem uma IA que melhora de quem tem uma IA que repete os mesmos erros.
Ciclo de melhoria
Como o cérebro aprende
Quando um texto sai com uma expressão que não é sua, não basta pedir “reescreve sem isto”. Peça: “Acrescenta ao minha-voz.md que nunca usamos esta expressão, e reescreve.” Ao fim de algumas semanas, os ficheiros refletem dezenas de pequenas decisões que, de outra forma, teria de repetir em cada conversa.
Dois recursos nativos que poucos usam
1. Dois agentes: um que faz, outro que revê
O Claude Code permite criar subagentes: agentes auxiliares, cada um com o seu papel, modelo e ferramentas, definidos em ficheiros na pasta .claude/agents/. Um padrão muito eficaz é ter um agente que produz e outro que revê contra critérios claros.
Exemplo para conteúdo:
Cria dois subagentes em .claude/agents/:
1. redator: escreve textos usando os ficheiros do cérebro. Não inventa números nem testemunhos.
2. revisor: só lê, nunca edita. Avalia cada texto contra minha-voz.md e meu-publico.md
e responde APROVADO ou REPROVADO, com a lista de problemas concretos.
O redator só me entrega um texto depois de o revisor aprovar.
Máximo de 3 rondas de revisão; à terceira, entrega-me com as notas pendentes.
O limite de rondas é importante: sem ele, os dois agentes podem ficar em ciclo, consumindo o limite do plano.
O mesmo padrão aplica-se a páginas web. Um agente de design analisa uma referência (de preferência o seu próprio site ou um modelo que tem direito a usar) e cria uma lista de verificação; um agente construtor faz a página; o primeiro aprova ou devolve com diferenças. Atenção: estudar a estrutura de páginas de terceiros é legítimo; copiar textos, imagens, logótipos ou o desenho de forma reconhecível não é.
2. O nível de esforço certo para cada tarefa
O Claude Code permite ajustar o nível de esforço de raciocínio com o comando /effort (ou no seletor de modelo da app). Esforço máximo produz respostas mais cuidadas em tarefas complexas, mas consome muito mais do plano.
| Tarefa | Esforço recomendado |
|---|---|
| Reescrever um parágrafo, corrigir gralhas | Baixo |
| Escrever um artigo ou uma proposta | Médio |
| Planear uma campanha, analisar dados, editar vídeo a partir de uma referência | Alto ou máximo |
Use o máximo apenas quando a qualidade do raciocínio faz diferença real.
Perguntas frequentes
Preciso do Claude Code para usar os três ficheiros?
Não. Os três ficheiros funcionam em qualquer assistente: nos Projetos do claude.ai, nos projetos ou GPTs personalizados do ChatGPT e nas Gems do Gemini. O Claude Code apenas os carrega automaticamente através do CLAUDE.md.
Que tamanho devem ter os ficheiros?
Curtos o suficiente para serem lidos e mantidos: uma a duas páginas cada. No Claude Code, os ficheiros importados contam para o contexto de todas as sessões, por isso o conteúdo deve ser essencial.
Posso usar estes ficheiros com clientes, numa agência?
Sim, e é uma das melhores aplicações: uma pasta por cliente, cada uma com os seus três ficheiros. Garante que nada se mistura entre marcas e facilita a passagem de trabalho entre pessoas da equipa.
Devo incluir dados de clientes no ficheiro do público?
Inclua frases e padrões, não dados pessoais. “Os diretores financeiros dizem que não têm tempo para mais uma ferramenta” é útil; nomes, emails e empresas concretas não devem estar nestes ficheiros.
O que são subagentes e preciso de os usar?
São agentes auxiliares com um papel definido (por exemplo, redator e revisor), criados como ficheiros na pasta .claude/agents/. Não são obrigatórios, mas um agente revisor que confronta os textos com os ficheiros do cérebro melhora a consistência de forma visível.
Com que frequência devo atualizar os ficheiros?
Sempre que corrigir a mesma coisa duas vezes, e numa revisão rápida a cada trimestre (ofertas, preços, concorrentes e objeções mudam).
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Informação verificada em outubro de 2026 na documentação oficial do Claude Code. Funcionalidades e comandos podem mudar entre versões.
Artigo publicado em jorgerosendo.com — IA, Marketing, SEO e Produtividade.