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Sim, a IA vai tirar empregos. E é tempo de deixarmos de fingir que não

Consultor de marketingPublicado a
Sim, a IA vai tirar empregos. E é tempo de deixarmos de fingir que não

Neste artigo

Há uma frase que se ouve em todas as conferências sobre inteligência artificial: “A IA não lhe vai tirar o emprego. Quem lhe vai tirar o emprego é alguém que usa IA.”

É uma frase confortável. Deixa toda a gente sair da sala tranquila. E está meio errada.

A IA vai tirar empregos. Já está a tirar. Os dados de 2025 e 2026 mostram onde, a quem e a que velocidade. Dizer o contrário a uma equipa não é otimismo: é falta de respeito pela inteligência das pessoas, que leem as mesmas notícias que nós.

A pergunta útil para um gestor não é “se”. É “que empregos, quando, e o que faço com isso na minha empresa”. É dessa pergunta que trata este artigo.

Em resumo

O essencial em 30 segundos

  • A IA já está a reduzir postos de trabalho, a começar pelos juniores
  • No saldo global, as previsões apontam para mais empregos criados do que destruídos, mas não são os mesmos nem para as mesmas pessoas
  • Cortar pessoas depressa demais também sai caro: a Klarna voltou a contratar humanos
  • O risco escondido é o fim do “funil” de juniores que formam os seniores de amanhã
  • O papel do gestor é redesenhar tarefas e dizer a verdade à equipa

Termos usados neste artigo
– IA generativa: sistemas que produzem texto, imagem, código ou áudio a partir de um pedido escrito, como o ChatGPT, o Claude ou o Gemini.
– Posto de entrada (júnior): primeiro emprego de quem acabou de se formar, normalmente com tarefas mais repetitivas e de menor responsabilidade.
– Automação: a IA faz a tarefa no lugar da pessoa.
– Aumento (ou complemento): a IA ajuda a pessoa a fazer a tarefa melhor ou mais depressa, mas a pessoa continua a ser necessária.
– Exposição à IA: medida de quanto as tarefas de uma profissão podem ser feitas ou apoiadas por IA. Exposição alta não significa desaparecimento, significa mudança.
– Agente de IA: sistema de IA que executa tarefas com vários passos de forma autónoma, por exemplo responder a pedidos de clientes e consultar sistemas internos.

O que os números já mostram

Não é preciso futurologia. Basta olhar para o que aconteceu nos últimos 18 meses.

Dados

Quatro números que acabaram com a conversa confortável

-13%emprego relativo dos 22–25 anos nas profissões mais expostas à IA (Stanford, 2025)
-4.000postos de apoio ao cliente na Salesforce (de 9.000 para 5.000), com agentes de IA
~50%dos postos de entrada de escritório que podem desaparecer, segundo o CEO da Anthropic
+78 Msaldo líquido de empregos até 2030, segundo o Fórum Económico Mundial

Vale a pena olhar para cada um com calma, porque contam histórias diferentes.

O estudo da Stanford (Brynjolfsson, Chandar e Chen, agosto de 2025) usou dados de salários de milhões de trabalhadores nos EUA. Conclusão: entre os 22 e os 25 anos, nas profissões mais expostas à IA, o emprego caiu 13% em termos relativos. Nos trabalhadores mais experientes das mesmas profissões, manteve-se ou cresceu. As profissões mais afetadas incluem apoio ao cliente, contabilidade e auditoria, programação e secretariado.

A Salesforce reduziu a equipa de apoio ao cliente de cerca de 9.000 para cerca de 5.000 pessoas em 2025. O CEO, Marc Benioff, explicou-o numa frase que circulou por todo o LinkedIn: “preciso de menos cabeças”.

Dario Amodei, CEO da Anthropic (a empresa que desenvolve o Claude), disse em maio de 2025 que a IA pode eliminar cerca de metade dos postos de entrada de escritório e levar o desemprego para 10% a 20% num horizonte de um a cinco anos. É um cenário, não uma certeza. Mas vem de quem constrói a tecnologia, não de quem a teme.

O Fórum Económico Mundial (Future of Jobs Report 2025) estima 170 milhões de empregos criados e 92 milhões destruídos até 2030. Saldo positivo: 78 milhões. E 39% das competências-chave vão mudar no mesmo período.

A mentira confortável e a verdade incómoda

Comparação

O que se diz nas conferências e o que os dados mostram

Confortável

“A IA só substitui tarefas, não pessoas”

Quando as tarefas de uma função desaparecem quase todas, a função desaparece com elas. A Salesforce não cortou tarefas: cortou 4.000 postos.

Incómodo

“A IA substitui primeiro quem está a começar”

Os dados da Stanford mostram que os juniores sentem o impacto antes dos seniores, porque fazem as tarefas mais fáceis de automatizar.

Confortável

“No saldo, cria-se mais emprego”

Verdade no agregado. Mas o empregado de apoio ao cliente de 24 anos não passa a especialista em dados por decreto.

Incómodo

“Os novos empregos exigem outras pessoas ou outras competências”

A transição tem um custo humano real. Fingir que não existe é o caminho mais rápido para perder a confiança da equipa.

Cortar depressa também sai caro: o caso Klarna

Se a história acabasse aqui, a conclusão seria simples: substitua pessoas por IA e poupe. Não é assim.

Em fevereiro de 2024, a Klarna anunciou que o seu assistente de IA fazia o trabalho de 700 agentes de apoio ao cliente e já tratava dois terços das conversas. Foi notícia em todo o mundo.

Em maio de 2025, o mesmo CEO, Sebastian Siemiatkowski, disse à Bloomberg que a empresa estava a voltar a contratar pessoas para o apoio ao cliente. A IA era mais barata, mas a qualidade do serviço tinha caído. Nas palavras dele, investir na qualidade do apoio humano é “o caminho do futuro” para a empresa.

Infografia

O ciclo que muitas empresas vão repetir

Anúncio“A IA faz o trabalho de centenas”
→
CorteRedução rápida de equipa
→
QuedaClientes notam a perda de qualidade
→
CorreçãoRecontratar, agora mais caro

A lição não é “a IA não funciona”. É que a IA funciona muito bem nas tarefas certas e muito mal quando é usada para cortar custos sem redesenhar o serviço.

O risco que quase ninguém está a ver: quem forma os seniores de 2035?

Aqui está a parte que me preocupa mais, e que raramente aparece nas notícias.

Um sénior não nasce sénior. Faz-se com anos a fazer o trabalho de júnior: rever contratos simples, escrever os primeiros relatórios, atender clientes difíceis, errar em coisas pequenas com alguém ao lado.

Se a IA faz esse trabalho e as empresas deixam de contratar juniores, poupam dinheiro hoje. Mas daqui a dez anos, de onde vêm os seniores? Quem vai saber rever o que a IA produz, se nunca fez esse trabalho à mão?

É uma decisão que cada empresa vai tomar sozinha, e que só se nota quando já é tarde.

A pergunta que deixo a cada diretor: se a sua empresa deixar de contratar juniores este ano, quem vai ocupar os cargos de responsabilidade em 2035? Comprar seniores ao mercado vai ficar mais caro, porque todas as empresas vão ter o mesmo problema ao mesmo tempo.

Que funções estão mais expostas

A exposição não é igual em todas as profissões. A tabela resume o que os estudos de 2025 apontam, com uma nota importante: exposição alta significa que a função vai mudar muito, não que vai desaparecer em todas as empresas.

Função Exposição O que tende a mudar
Apoio ao cliente de primeira linha Alta Perguntas frequentes e pedidos simples passam para agentes de IA
Contabilidade e auditoria júnior Alta Lançamentos, reconciliações e conferências passam a ser revistos, não feitos
Programação júnior Alta Código de rotina gerado por IA; o valor passa para rever e desenhar
Secretariado e apoio administrativo Alta Agendas, atas, emails e documentos com primeira versão automática
Marketing de conteúdo genérico Média a alta Textos e imagens de volume; o valor passa para a estratégia e a voz da marca
Vendas consultivas Média Preparação e follow-up automáticos; a relação continua humana
Gestão de equipas Baixa a média Relatórios e análise mais rápidos; decisões e pessoas continuam humanas
Trabalho físico especializado Baixa Pouco impacto direto no curto prazo

O que um gestor deve fazer já

Não é preciso escolher entre “cortar tudo” e “não mexer em nada”. Há um caminho intermédio, mais exigente e mais honesto.

Plano de ação

Cinco decisões para os próximos 90 dias

  1. Mapear tarefas, não funçõesListe o que cada função faz numa semana e marque o que a IA já consegue fazer bem.
  2. Redesenhar antes de cortarDecida o que as pessoas passam a fazer com o tempo libertado antes de decidir quantas pessoas são precisas.
  3. Manter um funil de junioresMenos juniores, talvez. Zero juniores, nunca. Mude o que fazem: rever, verificar, acompanhar clientes.
  4. Formar a sérioA obrigação de literacia em IA do AI Act já se aplica desde fevereiro de 2025. Formação é também conformidade.
  5. Dizer a verdade à equipaUm plano claro, mesmo com más notícias, gera menos medo do que o silêncio.

Sobre o último ponto, há um exemplo recente. Em abril de 2025, o CEO da Duolingo publicou uma nota interna a anunciar que a empresa passava a ser “AI-first” e que deixaria de usar trabalhadores externos em tarefas que a IA conseguisse fazer. A reação nas redes sociais foi tão negativa que, meses depois, admitiu: “Isto foi responsabilidade minha. Não dei contexto suficiente.”

A mensagem não era necessariamente errada. A forma de a comunicar é que foi.

Conclusão: a honestidade é uma vantagem competitiva

A IA vai tirar empregos. Também vai criar outros, provavelmente mais. Mas a transição não é automática nem indolor, e as empresas que a gerirem com honestidade vão ficar com as melhores pessoas.

As que fingirem que nada muda vão perder os melhores primeiro: são precisamente os que leem os sinais mais cedo.

Perguntas frequentes

A IA vai mesmo tirar empregos?

Sim. Os dados de 2025 já mostram reduções em funções como apoio ao cliente, contabilidade júnior e programação júnior. As previsões globais apontam para mais empregos criados do que destruídos até 2030, mas os novos empregos exigem outras competências e nem sempre são para as mesmas pessoas.

Que profissões estão mais em risco com a IA?

As que têm muitas tarefas repetitivas baseadas em texto, dados ou regras: apoio ao cliente de primeira linha, apoio administrativo, contabilidade e programação de nível júnior, produção de conteúdo genérico. Exposição alta significa grande mudança, não necessariamente desaparecimento.

Porque é que os juniores são os mais afetados?

Porque fazem as tarefas mais fáceis de automatizar. O estudo da Stanford de 2025 mostra uma queda de 13% no emprego relativo dos 22 aos 25 anos nas profissões mais expostas, enquanto os trabalhadores mais experientes das mesmas profissões se mantiveram ou cresceram.

Substituir pessoas por IA compensa sempre?

Não. A Klarna substituiu grande parte do apoio ao cliente por IA em 2024 e, em 2025, voltou a contratar pessoas porque a qualidade tinha caído. A IA compensa nas tarefas certas e quando o serviço é redesenhado, não quando é usada só para cortar custos.

O que deve um gestor fazer para preparar a equipa?

Mapear tarefas em vez de funções, redesenhar o trabalho antes de reduzir equipas, manter um número mínimo de juniores, investir em formação e comunicar o plano com clareza. Em Portugal, a formação em IA é também uma obrigação legal ao abrigo do artigo 4.º do AI Act.

A IA vai criar novos empregos?

O Fórum Económico Mundial estima 170 milhões de empregos criados até 2030, contra 92 milhões destruídos. Os que mais crescem em percentagem são especialistas em dados, tecnologia financeira e IA, mas também crescem funções como cuidados de saúde e logística.

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Informação verificada em outubro de 2026. Fontes: Stanford Digital Economy Lab via The Register, Axios, Computing (Salesforce), Entrepreneur (Klarna), Fórum Económico Mundial, Fortune (Duolingo).

Artigo publicado em jorgerosendo.com · Marketing com IA, SEO e GEO para empresas e marcas.

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