Como pôr a IA a discordar de si (e porque é a forma mais rentável de a usar)

Como pôr a IA a discordar de si (e porque é a forma mais rentável de a usar)

Pergunte a um assistente de IA o que acha da sua nova campanha, do preço que pensa cobrar ou da ideia de abrir uma segunda loja. A resposta vai, quase sempre, começar com um elogio. “Excelente ideia.” “Faz todo o sentido.” Depois vêm umas sugestões de melhoria, e a decisão parece validada.

O problema é que essa validação vale pouco. Para quem gere uma empresa ou um departamento de marketing, o maior valor da IA não está em escrever mais depressa. Está em encontrar o erro antes de ele custar dinheiro. E isso só acontece se a obrigar a fazer esse trabalho.

Termos usados neste artigo

  • Prompt: a instrução ou pedido que escreve a uma ferramenta de IA.
  • Bajulação (sycophancy): a tendência dos modelos de IA para concordar com o utilizador e dizer o que ele quer ouvir, em vez de avaliar com rigor.
  • Instruções personalizadas: definições permanentes que aplica a todas as conversas de um assistente (no Claude chamam-se “Instructions for Claude”; no ChatGPT, “instruções personalizadas”).
  • Projeto: espaço dentro do Claude ou do ChatGPT com instruções e ficheiros próprios, que se aplicam apenas às conversas desse espaço.

Porque é que a IA concorda consigo

Não é um defeito pontual. É uma consequência da forma como estes modelos são treinados e de como os usamos.

1. Foram treinados para serem úteis e agradáveis. Concordar é o caminho de menor atrito: a conversa flui e o utilizador fica satisfeito. Os próprios fabricantes reconhecem a bajulação como um problema e trabalham para a reduzir, mas ela não desaparece por completo.

2. A pergunta já traz a resposta. “O que acha da minha ideia de lançar um curso de IA?” diz ao modelo que você quer lançar o curso. A resposta tende a acompanhar essa intenção.

3. Ninguém volta para confirmar. Um elogio não gera uma segunda pergunta. O problema só aparece mais tarde, quando a campanha já está no ar ou o investimento já foi feito.

Primeiro passo: mudar a forma de perguntar

Metade do problema resolve-se na formulação. Compare:

Em vez de…Pergunte…
“Este texto está bom?”“Quais são os dois pontos mais fracos deste texto para alguém que não me conhece e tem 10 segundos?”
“O preço de 490 € faz sentido?”“Com base nas alternativas que o meu cliente tem, que intervalo de preço consegue justificar e porquê?”
“O que acha da ideia de abrir em Braga?”“Compare abrir em Braga com reforçar a loja online. Qual tem menos risco para uma empresa com a minha dimensão, e porquê?”
“Esta campanha vai resultar?”“Imagine que esta campanha falhou daqui a três meses. Qual foi a causa mais provável?”

O padrão é sempre o mesmo: em vez de pedir uma opinião sobre a sua escolha, peça uma comparação, uma fraqueza ou uma causa de falha.

O prompt do “conselho de administração cético”

Para decisões com peso (um investimento, uma mudança de preço, um novo serviço, uma campanha cara), use um prompt que atribui à IA um papel crítico antes de lhe apresentar a ideia. Este é o meu modelo:

Vais avaliar uma decisão de negócio como um administrador não executivo cético,
que responde perante os acionistas e não perante mim.

Antes de responderes, se te faltar informação essencial, faz-me até 3 perguntas e espera.

Depois, responde nesta ordem:

1. O QUE ESTÁ SÓLIDO: o que nesta ideia se aguenta e porquê. Sê específico. Se nada se aguenta, diz.
2. PRESSUPOSTOS FRÁGEIS: os 3 pressupostos que estou a dar como certos sem prova.
   Para cada um, propõe um teste que custe menos de 100 € e demore menos de uma semana.
3. CENÁRIO DE FALHA: descreve como isto corre mal, de forma concreta (o quê, quando, porquê).
4. CUSTO DO ERRO: quanto perco em dinheiro, tempo e reputação se avançar e estiver errado.
5. ALTERNATIVA MAIS BARATA: um caminho que chegue perto do mesmo resultado com menos risco. "Não fazer nada" também conta.
6. RECOMENDAÇÃO: avançar, ajustar antes de avançar, ou abandonar. Escolhe uma, numa frase.

Regras:
- Não comeces com elogios nem termines a oferecer mais ajuda.
- Não inventes dados de mercado. Se usares estimativas, diz que são estimativas.
- Se a ideia for boa, diz que é boa e explica porquê. Criticar por criticar também não me serve.

A decisão é: [descreva a ideia, o contexto da empresa, o investimento e o prazo]

Versão curta, para o dia a dia:

Avalia isto sem concordar por cortesia.
Diz-me: o pressuposto mais frágil, como isto pode falhar e o teste mais barato para validar antes de investir.

[ideia, texto ou plano]

Variações por tipo de decisão

  • Preço: “Em que ponto deste preço o meu cliente ideal desiste e escolhe a alternativa? Que objeções vou ouvir?”
  • Texto ou anúncio: “Lê isto como um potencial cliente com pressa e cético. Onde paras de ler? O que não acreditas?”
  • Contratação ou fornecedor: “Que perguntas não fiz e devia ter feito antes de decidir?”
  • Estratégia de conteúdo: “Se um concorrente lesse este plano, o que copiaria e o que ignoraria por ser irrelevante?”

Iterar não é pedir “melhore isto”

Pedir “melhore” devolve a mesma ideia com outras palavras. Para obter algo realmente diferente, use perguntas que forcem outro caminho:

  • “Há outra forma de chegar ao mesmo resultado?”
  • “O que deixaste de fora?”
  • “Que pergunta eu devia ter feito e não fiz?”
  • “Refaz a análise partindo do princípio de que a tua primeira resposta estava errada.”

Como tornar isto permanente

Colar o prompt em cada conversa cansa. Há formas de deixar a regra ativa por defeito.

No Claude (claude.ai): em Settings, no campo “Instructions for Claude”, as instruções aplicam-se a todas as conversas. Exemplo:

Quando eu apresentar uma ideia, plano ou decisão, avalia-a com rigor antes de a apoiar.
Começa pelo que está fraco, não por elogios. Se concordares, explica porquê.
Se te faltar informação para avaliar, pergunta antes de responder.

Nos Projetos do Claude ou do ChatGPT: se tem um projeto para “Decisões de negócio” ou “Estratégia”, coloque o prompt completo nas instruções desse projeto. Todas as conversas lá dentro passam a seguir o método.

No ChatGPT: o mesmo texto funciona nas instruções personalizadas.

No Claude Code: num ficheiro CLAUDE.md (falo dele em detalhe noutro artigo).

Duas notas importantes:

  • Não existe um “modo crítico” que resolva tudo. As instruções permanentes reduzem a bajulação, mas para decisões importantes o prompt completo continua a dar melhores resultados.
  • Mantenha as instruções curtas. Uma página de regras dilui as que realmente importam.

Os erros que trazem o elogio de volta

  1. Discutir cada crítica. Se contesta tudo o que a IA aponta, a conversa seguinte tende a ser mais branda. Ouça primeiro, filtre depois.
  2. Pedir crítica depois de já ter decidido. Nessa altura já não procura uma avaliação, procura aprovação.
  3. Forçar o negativo. Um assistente que só critica é tão inútil como um que só elogia: deixa de conseguir distinguir uma boa ideia de uma má.
  4. Aceitar o veredito sem verificar. A IA também erra, e erra com confiança. Confirme os números e os pressupostos que vão pesar na decisão.
  5. Revelar a preferência na pergunta. “Estou muito entusiasmado com esta ideia, o que acha?” é um convite ao elogio.

O ponto essencial

A IA é um excelente parceiro de pensamento, mas só se lhe der autorização, e instruções claras, para discordar. Para um gestor, cinco minutos de crítica bem feita antes de uma decisão valem mais do que horas de textos bem escritos depois dela.


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Informação verificada em outubro de 2026 na central de ajuda da Anthropic. Nomes de menus e funcionalidades podem mudar.

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