A maioria dos calendários editoriais nasce de uma reunião: alguém sugere um tema, outro concorda, e o mês fica preenchido. O resultado são conteúdos sobre o que a marca quer dizer, não sobre o que o público quer saber.
Há uma fonte de informação muito melhor e quase sempre ignorada: os comentários. Nos vídeos do seu canal e dos canais de referência do seu setor, o público faz perguntas, mostra dúvidas e diz o que não percebeu. É pesquisa de mercado gratuita, escrita pelas palavras do próprio cliente.
Neste guia mostro como usar o Claude para recolher esses comentários, perceber que vídeos tiveram desempenho acima do normal e transformar as perguntas repetidas em temas de conteúdo com prova.
Termos usados neste artigo
- Conector MCP: ligação que permite ao Claude usar uma ferramenta externa (neste caso, a Apify) diretamente a partir da conversa.
- Apify: plataforma com “atores”, pequenos programas prontos para recolher dados públicos de sites e redes sociais.
- API do YouTube (YouTube Data API): a interface oficial da Google para aceder a dados públicos do YouTube, como vídeos e comentários.
- Mediana: o valor do meio numa lista ordenada. Ao contrário da média, não é distorcida por um vídeo viral isolado.
- Calendário editorial: o plano de temas e datas de publicação de conteúdo.
A lógica do sistema
São três passos:
- Recolher os vídeos e comentários do seu canal e de 3 a 10 canais de referência do setor.
- Medir que vídeos tiveram desempenho acima do normal para aquele canal.
- Agrupar os comentários em temas e contar quantas vezes cada tema aparece.
O resultado é uma lista de temas, cada um com prova: quantos comentários, quantos gostos, em que vídeos e com que palavras exatas o público fala dele.
Passo 1: recolher os dados
Há três caminhos, com diferentes níveis de esforço e custo.
| Caminho | Como funciona | Custo | Para quem |
|---|---|---|---|
| Claude + conector Apify | Pede a recolha em linguagem natural e o Claude usa os atores da Apify | Plano gratuito com 5 USD/mês de utilização; planos pagos a partir de 19 USD/mês | Quem não quer instalar nada |
| API oficial do YouTube | O Claude Code escreve um pequeno script que usa a API da Google | Gratuito dentro da quota diária | Quem quer o caminho mais seguro em termos de regras |
| Claude Code + yt-dlp | Ferramenta de linha de comando que extrai dados do YouTube | Gratuito, mas lento | Uso pessoal e testes |
Preços da Apify verificados em outubro de 2026 em apify.com/pricing.
Sobre regras e termos de utilização: os termos do YouTube restringem a recolha automática de dados fora dos meios autorizados. Para uso profissional e recorrente, a API oficial é o caminho mais seguro. Ferramentas de terceiros têm as suas próprias condições, que deve confirmar. Em qualquer caso, os comentários contêm nomes de utilizador, que são dados pessoais: guarde apenas o necessário (o texto e os gostos) e não use os dados para contactar as pessoas.
Ligar a Apify ao Claude: a Apify tem um servidor MCP oficial (mcp.apify.com). Depois de ligado, autoriza pelo navegador, sem colar chaves na conversa.
Pedido para o primeiro teste (comece pequeno):
Usa a Apify para recolher os últimos 10 vídeos do canal [URL] e os comentários de cada um.
Antes de executares, diz-me que ator vais usar, quantos itens vais recolher e quanto vai custar.
Só avanças depois de eu confirmar.
Passo 2: medir o que funcionou de verdade
O erro mais comum é ordenar os vídeos por número de visualizações. Um canal grande terá sempre números maiores do que um canal pequeno, e isso não diz nada sobre o tema.
A medida certa é relativa: visualizações do vídeo a dividir pela mediana de visualizações desse canal.
- Um vídeo com 2× a mediana teve o dobro do desempenho habitual do canal. Isso diz algo sobre o tema.
- Use a mediana, não a média. Um vídeo viral puxa a média para cima e esconde os outros destaques.
- Considere destaque a partir de 1,5× a mediana.
- Canais com poucos vídeos (menos de 6 a 8) não dão uma referência fiável. Marque-os como “sem referência”.
- Não misture plataformas. Visualizações no YouTube e no Instagram medem coisas diferentes.
Passo 3: transformar comentários em temas
Aqui está o trabalho que a IA faz bem, desde que tenha regras claras. As regras que uso:
- Cada tema tem uma lista de palavras-chave, escritas em minúsculas e sem acentos (o texto dos comentários é normalizado da mesma forma antes da comparação).
- As palavras contam apenas como palavra inteira. Procurar “ia” sem esta regra apanha “dia”, “via” e “média”, e infla o tema artificialmente.
- Cada comentário conta para um só tema. Senão, os números somam mais de 100%.
- Os comentários do próprio dono do canal não contam. São respostas, não perguntas do público.
- Os comentários com perguntas que não encaixam em nenhum tema são a matéria-prima de temas novos. Três perguntas sobre o mesmo assunto já justificam um tema.
Cada tema final deve ter:
| Campo | Exemplo |
|---|---|
| Título | Quanto custa ter um agente de IA no WhatsApp |
| Gancho | “Toda a gente pergunta o preço. Ninguém fala do custo escondido.” |
| Prova | 42 comentários, 310 gostos, em 6 vídeos de 3 canais |
| Frases reais | “mas isso paga-se por mensagem?”, “qual é o preço para uma loja pequena?” |
| Formato sugerido | Vídeo curto + artigo de blog |
| Vídeo de referência | O vídeo com maior desempenho relativo sobre o tema |
| Cuidado | O que o conteúdo não pode prometer |
O campo Cuidado é especialmente importante em setores regulados (saúde, finanças, alimentação): regista o que não pode ser afirmado.
Os prompts
Análise completa no Claude (com o conector Apify):
Quero descobrir temas de conteúdo para [setor] a partir de comentários do YouTube.
Canais: o meu [URL] e as referências [URL1, URL2, URL3].
1. Recolhe os últimos 30 vídeos de cada canal. Antes de executares, mostra-me o custo estimado.
2. Calcula a mediana de visualizações de cada canal e o desempenho relativo de cada vídeo (visualizações / mediana).
Canais com menos de 8 vídeos ficam "sem referência".
3. Para os vídeos acima de 1,5× a mediana, recolhe os comentários.
4. Ignora comentários do dono do canal. Agrupa os restantes em temas, com cada comentário num só tema
e palavras-chave contadas apenas como palavra inteira.
5. Entrega uma tabela de temas com: título, gancho, prova (comentários, gostos, vídeos), 2 frases reais,
formato sugerido e cuidado. Lista também as perguntas que não encaixaram em nenhum tema.
Responde em português de Portugal. Não inventes números: tudo tem de vir dos dados recolhidos.
Sem recolha automática, a partir de um ficheiro:
Se já tem os comentários exportados (por exemplo do YouTube Studio, para o seu próprio canal), anexe o ficheiro e peça:
Em anexo estão os comentários do meu canal. Ignora os meus próprios comentários.
Agrupa-os em temas, com cada comentário num só tema, e entrega a tabela de temas com prova.
Lista separadamente as perguntas que não encaixam em nenhum tema.
Armadilhas que distorcem os números sem dar erro
- Ordenar por visualizações absolutas em vez de desempenho relativo.
- Usar a média em vez da mediana.
- Calcular a referência com 3 ou 4 vídeos. Amostra pequena, conclusão errada.
- Procurar palavras sem fronteira (“ia” dentro de “dia”).
- Contar o mesmo comentário em vários temas.
- Contar as respostas do dono do canal.
- Correr recolhas pagas sem estimar o custo antes.
- Perder o trabalho humano numa nova recolha: se já anotou estados e decisões nos temas, peça explicitamente para os preservar.
Os limites desta abordagem
- Quem comenta não é todo o público. Os comentários mostram as perguntas de uma minoria ativa. Servem para descobrir temas, não para medir procura. Para medir procura, cruze com dados de pesquisa (Google Search Console, ferramentas de palavras-chave).
- Funciona melhor em setores com vídeo ativo. Em nichos B2B muito específicos, pode haver poucos comentários. Nesse caso, a mesma lógica aplica-se a perguntas de clientes por email, WhatsApp ou chamadas comerciais.
- Medir depois de publicar. Cada conteúdo criado a partir de um tema deve ser comparado com a mediana do seu próprio canal. É assim que se percebe se o método está a funcionar.
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Informação verificada em outubro de 2026. Preços, condições das plataformas e termos de utilização podem mudar: confirme sempre nas páginas oficiais.